28.4.17

Enamoramento e Amor

Enamoramento e Amor
Francesco Alberoni
1979
Ensaio

Trouxe este livro da LFL da Quinta das Conchas, quando lá me fui encontrar com o seu steward por outro propósito qualquer. Enfim, não resisti a trazer alguns livros, que servem de compasso de espera antes do meu próximo projecto TBR, que revelarei a seu tempo. Este volume foi-me pessoalmente recomendado pelo steward.

No entanto, não me suscitou tanto interesse como estava à espera. Trata-se de um ensaio em que o autor debate as diferenças entre as noções de enamoramento, enquanto paixão, e amor propriamente dito. Refere vários pontos que fazem todo o sentido, mas forma como tudo isto está explicado parece-me demasiado redutora: afinal um sentimento, uma emoção, não podem ser minimizadas para caberem dentro da ideia de conceptualização de um autor.

Apesar de tudo, gostei muito do facto de o autor raramente falar de géneros e sexos biológicos, permitindo a existência do enamoramento (e, posteriormente, do amor) em todas as suas formas e qualidades. Apenas no final ele começa a esticar um bocadinho a corda, com noções plenamente desactualizadas sobre o papel feminino no ambiente familiar.

Regressará à casinha em ocasião breve. :)




Mardock Scramble: The Third Exhaust

Mardock Scramble: The Third Exhaust
Kudou Susumu - GoHands
Anime - Filme
2012
  6 em 10
 
Chegou, então, a altura de ver o terceiro filme de Mardock Scramble

Este filme é melhor que o anterior, mas ainda assim tem elementos em que n~ºao consegue ultrapassar o primeiro, se quisermos comparar. Para começar, a cadência narrativa está bastante desequilibrada, o que torna um filme um pouco sacrificante. Os primeiros quarenta minutos do filme são, essencialmente, a continuação do segmento do casino, que toma proporções muito entediantes. Existe aqui um certo desenvolvimento da personagem de Balot, mas a forma como essaws revelações influenciam as suas relações interpessoais acaba por ficar bastante incompleta.

No entanto, na última parte do filme são explicadas secções da história que tinham ficado para trás, sendo que achei que a resolução estava muito bem pensada e, de certa forma, muito impressionante em termos morais e éticos. Finalmente temos as cenas de acção pelas quais todos esperávamos, mas estas acabam por ficar um pouco atrás da expectativa: o inimigo é demasiado forte, a luta é muito desequilibrada e, assim, as coreografias parecem não ter relevância no meio desta troca de tiros.
 
Também os cenários foram reduzidos ao essencial, sendo esta terceira instância mais baseada em interiores que, graças ao tratamento digital, aparecem muito pouco realistas.

Musicalmente, não existe nenhum tema identificável, como no primeiro filme.

Ainda assim, penso que foi uma excelente conclusão. Recomendo esta trilogia!

Neruda

Neruda
Volodia Teitelboim
1991
Biografia

Para completar o meu projecto de conhecer Pablo Neruda antes de ver o filme de Pablo Neruda, uso uma chave de ouro: uma biografia escrita por um dos seus mais íntimos amigos.

Este é um livro muito bem escrito, embora estruturalmente confuso. Apesar de o autor relatar a vida de Neruda por ordem cronológica aparecem muitos elementos futuros misturados com coisas do passado e vice versa. Isto é muito bom para caracterizar Neruda enquanto pessoa, mas pode tornar a leitura um pouco confusa.
 
De resto, descobri uma série de coisas da vida pessoal e política do autor, algumas muito interessantes e outras muito perturbadoras. É curioso ver como um homem que escreve tão belos poemas de amor tem uma vida amorosa tão atribulada e, de certa forma, injusta para as intervenientes, desprezadas, traídas ou simplesmente substituídas por figuras mais jovens. É admirável como elas continuam a afazer parte do círculo íntimo do autor depois destes maus tratos.

O livro tem muitas citações poéticas, que me ajudam também a completar um pouco da minha percepção sobre Neruda, sobretudo porque muitas destas citações vêm seguidas de uma explicação do seu contexto.

Um livro precioso, pelo qual agradeço muito o empréstimo!

La La Land

La La Land
Damien Chazelle
2016
Filme
4 em 10

Considerando que este foi o filme que mais nomeações recebeu para os óscares do ano passado, arrebatando não poucos, considerámos necessário vê-lo pare percebermos o que se passou. Aquilo, então, que eu percebo é que ou Hollywood gosta muito de cheirar o seu próprio ânus ou alguém pagou muito bem aos críticos para falarem deste filme. Porque é a coisa mais inana que vi nos últimos tempos.

A história é vulgar: uma aspirante a actriz apaixona-se por um pianista de jazz que tem o sonho de abrir um bar. Fartam-se de cantar e dançar, corre tudo mal mas depois corre tudo bem. E então? Temos personagens sem conteúdo: a caracterização é fraca e o desenvolvimento é praticamente nulo. Não se compreende como Emma Stone ganhou um óscar perante uma personagem tão plana.
 
Existe um esforço para caracterizar o mundo Hollywoodesco, utilizando para isso referências infinitas a outros filmes do passado, clássicos com demasiada qualidade para serem simplesmente colocados aqui às três pancadas, quer através do jogo de cores e luzes quer pelo próprio diálogo. Este é infeliz, pois - tal como as personagens que o dizem - não tem conteúdo mental e é, simplesmente, corriqueiro.
 
Salvam este filme as partes musicais? Não. Apenas o perturbam ainda mais. As músicas são repetitivas, exageradas e existem demasiadas a toda a hora. As danças não estão especialmente bem coreografadas. Sobretudo, os momentos em que as canções aparecem não fazem sentido dentro do contexto.
 
Ia dar um 6 a este filme, que é o que eu dou ao que me deixa indiferente. Mas o Qui convenceu-me a mudar a nota: afinal, não gostei nem de uma gota deste filme. Na verdade, só queria que ele terminasse rápido para poder ir dormir.

23.4.17

Mardock Scramble: The Second Combustion

Mardock Scramble: The Second Combustion
Kudou Susumu - GoHands
Anime - Filme
2011
  6 em 10
 
Depois de vermos o primeiro filme desta saga, o Qui ficou cheio de vontade de ver a continuação. Assim, lá fomos nós em busca dela pelo mundo da internete :> 

Infelizmente, este filme é bastante inferior ao primeiro. Pode quase dizer-se que se trata de um filme de transição. Pegando precisamente onde a primeira instância nos deixou, começam buscas e salvamentos que, curiosamente, correm sempre demasiado bem. Temos muito menos cenas que potenciem acção e, assim, momentos de animação mais dinâmicos. Os personagens também parecem sofrer um retrocesso no seu desenvolvimento: fará sentido que, depois das acções que vimos anteriormente, esteja simplesmente "tudo perdoado"?

Em compensação, temos um cuidado extremoso nos cenários, com situaçlões muito belas e muito bem adaptadas ao universo que nos está a ser apresentado, sem nunca perder uma certa aura de cyberpunk.

É uma pena que este filme não tenha sido um pouco mais dinâmico e tenha muitos momentos que vão contra qualquer lógica.

Resta-nos ver o terceiro e saber o que vem daí.

21.4.17

Confesso que Vivi

Confesso que Vivi
Pablo Neruda
1974
Auto-biografia

Estou quase a finalizar o meu pequeno projecto de "conhecer Pablo Neruda e a sua obra antes de ver o filme sobre o Pablo Neruda". Um amigo BookCrosser fez-me o favor de me enviar este livro. Trata-se de uma auto-biografia do autor, em que ele fala de pequenos episódios da sua vida e como estes podem ter influenciado a sua poesia.

Neruda parece, através deste livro, uma pessoa muito simpática e disponível, que foi injustamente perseguida por ideais pelos quais nem sequer se manifestou violentamente: a única coisa errada que ele fez foi escrever poesia. Conta-nos neste livro episódios da infância e da juventude (por exemplo, não sabia que tinha sido cônsul chileno na Ásia), referido pessoas e eventos com os quais fez amizde e o marcaram de alguma forma.

No entanto, deve dizer-se que o autor escreve poesia muito melhor do que prosa. Existem, por exemplo, elementos que são enumerados num parágrafo para depois só um deles ser explicado no seguinte. E outros pequenos erros estilísticos.

Para além disso, há capítulos demorados em que o autor faz tanto o elogio como a depreciação de pessoas específicas que nós, não conhecendo, não poderemos achar relevante.
 
Foi uma boa maneira de ficar a conhecer a personalidade do autor. Agora só me resta uma biografia oficial, que já estou a ler, para fechar o meu mini-projecto. :)

As Asas do Desejo

As Asas do Desejo
Wim Wenders
1987
Filme
7 em 10

Celebrando o trigésimo aniversário deste filme, foi reposto no cinema da biblioteca aqui perto de casa. Fomos vê-lo e, diga-se, a sala estava cheia! Nunca tinha visto aquele auditório assim!

Os anjos andam entre nós, observando-nos, ouvindo os nossos pensamentos, documentando a humanidade desde o seu surgimento no planeta. Mas existe um anjo que, neste momento, não se consegue conformar. O seu maior desejo é sentir as coisas, poder agarrar nas coisas, poder descalçar os sapatos. Como se fosse um ser humano. A sua decisão torna-se cada vez mais forte quando toma um especial interesse por uma trapezista frustrada. Será que esta história de amor vai vingar?

É um filme pleno de detalhes que permitem leituras diversas e interpretações muito pessoais. Afinal, o que significam os anjos? Porque é que eles só vêm a preto e branco? Como sentem as emoções das pessoas, se a eles não é permitido ter emoções? É uma perspectiva um pouco assustadora, pensar que está sempre alguém aqui ao lado a ouvir os nossos pensamentos. Mas também é um pouco triste pensar que, estando eles aqui, não podem fazer nada. Não podem agir. Não podem intervir.

Os cenários são os do muro de Berlim antes da sua queda. Imagens tristes, decadentes, apodrecidas mas, apesar de tudo, muito contemplativas. O autor consegue mostrar-nos o mundo pelos olhos dos anjos e isso tem o poder de nos transportar para um universo que, existindo ou não, nos deixa um vazio no coração.

É um filme bonito mas, aparentemente, dividido em duas partes. Agora terei de ver a segunda.