11.1.17

A Morte de Virgílio

A Morte de Virgílio
Hermann Broch
1945
Romance

Este foi um dos livros preferidos do meu pai dos últimos tempos, a ponto de ele o ter lido avidamente por mais de uma vez. Por isso, emprestou-mo para saber a minha opinião e me converter aos encantos líricos desta narrativa. Infelizmente, tal não obteve resultado, sendo que da nossa última conversa literária adveio grande encabulamento enquanto eu estava a explicar porque não estava a gostar. Penso que o meu pai ficou um pouco triste, mas passarei a explicar melhor o que achei desta obra. :)

Virgílio, a quem não saiba, foi o poeta romano que escreveu o épico "Eneida", glorificação do seu império, dos seus deuses e dos seus imperadores E QUE (!!) eu nunca li. O livro inicia-se com o seu regresso da Grécia, onde estava a passar uma temporada cultural, para que devolva o manuscrito da Eneida ao César Augusto. No entanto, o autor encontra-se muito doente.

A primeira metade do livro, que consiste na viagem até à habitação por ruas cheias de gente a sua primeira noite nesta, ardente em febre, foi o exercício mais aborrecido que li nos últimos tempos. Isto não tanto pelo conteúdo da narrativa, que acaba por ser uma contemplação bastante bela (dentro do contexto) da morte próxima e da vida enquanto reflexo da morte, mas pela forma. A forma como tudo isto está escrito é muito irritante, porque o autor repete conceitos e palavras ad nauseum, tornando esta leitura num verdadeiro pesadelo gramatical (em vez de um pesadelo astral, conforme o vivido pelo personagem). Para dar um exemplo, imaginemos que eu escrevia todas as minhas palavras escritas de uma forma bem escrita, escrevia todas as minhas palavras, sim, escrevia palavras de forma moderadamente escrita, mas todas as palavras que escreviam incluíam as palavras escrever e as palavras palavras. É mais ou menos assim por cerca de 200 páginas.

No entanto, a partir da terceira parte (segunda metade) o autor recupera-se plenamente e temos um capítulo imensamente interessante em que existe uma melhor caracterização do personagem enquanto ser vivente, baseando-se na sua relação com os outros, os seus amigos e o próprio César. Nesta parte torna-se mais evidente que existem alguns personagens que não existem neste plano, sendo a sua presença causada pela pura imaginação febril de Virgílio. Estes personagens são altamente simbólicos, talvez relatando cada uma uma parte da vida do personagem, talvez representando cada uma uma parte dos desejos do personagem, tanto que elas lhe dizem coisas que deve fazer, acções que deve tomar que fariam todo o sentido se não fossem as pessoas "reais" a impedi-lo. Esta secção é literatura pura, da mais prazerosa que li ultimanmente, com diálogos fascinantes, imagens lindíssimas e cativantes.

Depois, numa parte final muito curta, o autor volta à técnica do início (apesar de não tão evidente) e mostra a forma como Virgílio vai para "o outro lado" e encontra o deus uno e verdadeiro. Situação ligeiramente desconfortável, considerando que o senhor haveria de ser panteísta.

Um livro que me deixou muito dividida. É complexo, difícil de navegar, com uma escrita bizarra na maior parte da narrativa, mas penso que a secção da "Terra" talvez possa compensar todos estes elementos. Lá que dá vontade de ler a Eneida... Isso dá!

The Fits

The Fits
Anna Rose Holmer
Filme
2015
6 em 10

Vimos este filme independente, pois era o mais curto que tínhamos disponível e eu precisava de ir dormir. :p

Toni é uma menina que se dá com os rapazes. Afinal, está no boxe e dedica todo o seu tempo a treinar esta modalidade. No entanto, no mesmo ginásio, existe um grupo de dança que a fascina. As "Lionesses" são lindas, poderosas, ganham imensos prémios. Por isso, ela decide juntar-se a elas e tentar dançar também. A sua integração é difícil, mas tudo está a correr bem até ao momento em que as raparigas do grupo começam a ter ataques convulsivos, motivados por uma razão misteriosa que nunca é esclarecida. O medo começa a crescer. O que será que podemos fazer?

Trata-se de um filme muito simples, com parcos recursos que se evidenciam nos cenários, roupas e métodos de filmagem. No entanto, a autora consegue fazê-lo funcionar na perfeição, sendo que utiliza precisamente estas limitações para acrescentar uma aura de mistério e suspense a toda a narrativa que, em conclusão, se apresenta quase como simbólica.

É um filme de descoberta pessoal, de crescimento da personagem, de integração com o grupo. Não é um filme pleno de moral e de eventos de auto-satisfação, mas demonstra muito bem estes elementos através de uma história cuidada, personagens cativantes e paisagens perturbadoras.

Teoriza-se que, talvez, os "fits" sejam uma manifestação colectiva do encontro social: isto é, apenas o primeiro teria existido realmente e os outros tenham sido involuntariamente fingidos. Para mim, os "fits" representam algo mais. Algo que as raparigas adquirem com a maturidade, integração, algo que não se pode explicar. Não terão acontecido realmente. Tudo não passa de uma metáfora.

Será que é assim? Vejam para saber. :)

Desgraça

Desgraça
J.M. Coetzee
1999
Romance


Já há muito tempo que não participava num Ring do BookCrossing! :) Este livro foi o regresso à TBR de papel, que há muito estava relegada para leituras Kobísticas. Nunca tinha lido nada deste autor e devo dizer que tinha muita curiosidade.

Este livro fala da vida normal de uma pessoa um pouco anormal. Este professor universitário de 50 anos tem um problema com as mulheres, sendo que o satisfaz regularmente com uma acompanhante discreta. Quando a descobre fora do hotel em que partilham uma noite por semana, começa a persegui-la, sabe-se lá porque razão, e ela afasta-se. Assim, passa à próxima vítima: uma das suas estudantes universitárias. Mas esta relação vai correr muito mal e relegá-lo para um plano inferior da existência, com a sua expulsão dos quadros da faculdade.

Ora, quando isto acontece ele decide visitar a sua filha, que vive isolada no campo, cultivando flores, numa reminiscência hippie de ligação à terra. Mas a sua desgraça não terminará aqui...

O livro está escrito de uma forma altamente viciante, pleno de referências muito específicas que são sempre demonstradas de forma extremamente simples. A força principal da narrativa encontra-se nas personagens que nela estão encerradas, nomeadamente este professor. A sua caracterização é perfeita, sendo que se denota uma evolução fremente em cada página: passa de um conquistador a uma pessoa resignada com o seu destino infeliz, tratando de assuntos infelizes (a morte de animais necessitados) e aceitando que não pode compreender mais o universo que o rodeia, nomeadamente a sua filha e os seus vizinhos.

Se há alguma falha neste livro, talvez seja precisamente a caracterização destes. Por vermos tudo da perspectiva do personagem principal, algumas atitudes e acções parecem bastante destituídas de lógica ou contexto, sendo que é difícil de compreender as motivações de todo este grupo de pessoas, desde a estudante até ao vizinho e, sobretudo, da filha.

O livro é também um óptimo retrato da moderna África do Sul, um país que para muitos de nós é totalmente desconhecido. Ainda assim, seria interessante ter um pouco mais de detalhe sobre os hábitos culturais e a diferença apartheid que está sempre presente.

Fiquei com vontade de ler mais livros deste autor. :)

6.1.17

Gosenzo-sama Banbanzai!

Gosenzo-sama Banbanzai!
Mamoru Oshii - Studio Pierrot
Anime OVA - 6 Episódios
1989
6 em 10

Trata-se de um dos primeiros trabalhos do Sr. Oshii, um OVA muito experimental que explora o tema da unidade familiar em oposição aos acontecimentos estranhos que lhe podem ocorrer.

Contado como se de uma peça de teatro se tratasse, cada episódio começa com um pequeno relato sobre um animal bizarro e, a partir daí, desenvolve-se a narrativa de cada uma das secções, sempre acompanhados por muitos momentos musicais, situações de monólogos inusitados e cenários que podem cair aos bocados em qualquer momento. A narrativa não é especialmente directa, mas se uma pessoa atentar a todos os detalhes, mesmo os menos lógicos, poderá tirar algumas conclusões sobre a evolução dos personagens que, aparentemente, podem representar algo da vida do autor.

Apesar de tudo, os personagens estão cientes de que não passam de bonecos e que estão presos ao destino que o autor lhes traçar.

A animação tem alguns momentos de puro bizarro, mas no geral está bastante regulamentar, sem nada de extraordinário que seja distinguível. Os designs dos personagens e o desenvolvimento das suas expressões está bastante básico, apesar de serem as típicas da época.

O anime tem muitos momentos musicais, cada um mais patético que o outro, mas que funcionam dentro do contexto.

Um anime estranho, engraçado, que não me cativou especialmente mas que tem o seu valor enquanto experiência.

Mobile Suit Gundam - Awakening

Mobile Suit Gundam - Awakening
Yoshiyuki Tomino
1979
Light Novel

Como sabem, Gundam é uma das minhas paixões. :) Assim, quando soube que - após a primeira série de 1979 - o Sr. Tomino tinha escrito uma série de livros sobre ela, com três volumes no total, achei que era absolutamente necessário lê-la. Finalmente chegou a hora.

Este primeiro volume conta grande parte da história da primeira série, mas sem grandes sequências de monstros diários ou alívio cómico. É uma narrativa directa ao assunto, que explora em muito mais detalhe conceitos do universo de Gundam, como a estrutura das colónias, a influência das partículas Minovsky (que, confesso, nunca tinha entendido muito bem) ou  própria engenharia dos Mobile Suits.

Para além disso, fala num detalhe fascinante dos assuntos da ascensão ao poder de Zeon (Sieg Zeon!) e do objectivo de Char Aznable que, mesmo em livro, é um personagem altamente cativante e com muito mais dúvidas, incoerências e juventude do que na série. A relação com Lala Sun também é explorada de forma um pouco diferente.
 
Talvez o único defeito seja a descrição intensiva e um pouco excessiva das batalhas, o que se pode tornar um pouco aborrecido.

Assim, com este primeiro volume, Tomino estabelece que Gundam em si é um universo que vai muito além da necessidade de vender bonecos a crianças. Tem uma vida própria, um encanto próprio e, mais uma vez, parece que ganhei o bichinho pelos meus queridos Gandamus. :) Ansiosa por ler o segundo volume!

O Abraço da Serpente

O Abraço da Serpente
Ciro Guerra
2015
Filme
7 em 10

Confesso que mais para o final do filme já não estava muito atenta, pelo que digo desde já que merece ser revisto.

Um filme complexo e hipnotizante, tal qual uma serpente, que fala sobre a influência dos exploradores Europeus no universo indígena da Amazónia. Um explorador procura uma planta medicinal que poderá curar a sua trágica doença, pedindo para isso ajuda a um índio que muito sabe sobre esse tema. Quarenta anos mais tarde, um Americano encontra o mesmo índio, agora muito mais velho, para que lhe mostre essa planta e esta possa ser estudada pelos métodos "civilizados". 

Explora-se aqui muito sobre a identidade cultural dos vários povos, dos aspectos que os ligam mas, sobretudo, dos aspectos que os separam. Tendo muitos momentos altamente violentos, não tanto pelo seu grafismo mas pelos conceitos que exploram, o filme segue uma viagem em tudo semelhante a um "Apocalypse Now", em que os indígenas procuram manter os seus segredos mas, a pouco e pouco, abrem o seu coração para a presença do "homem branco" que, como sempre, destrói tudo aquilo em que toca.

O filme é a preto e branco e, devo dizer-vos, utiliza esta técnica com uma mestria que há muito não via. As imagens são altamente vívidas, sendo que cada planta, cada folha, cada gota de água tem tanto dentro dela que quase podemos sentir o seu cheiro, os seus ruídos, a sua força primal.

As interpretações também estão fascinantes, sobretudo a do(s) xamã índio, uma personagem que evolui no decurso da narrativa de forma quase inesperada.

Sei que este filme foi enviado para nomeação para os óscares, de melhor filme estrangeiro, esperemos que consiga!


Romance of the Three Kingdoms

Romance of the Three Kingdoms
Yano Hiroyuki - TV Tokyo
Anime - 47 Episódios
1991
6 em 10

O "Romance dos Três Reinos" é uma obra literária épica da China que tem vindo, desde sempre, a ser adaptada para o formato de anime, sendo que esta já é a terceira adaptação que vejo. Esta, no entanto, baseia-se num manga de mesmo nome ("Yokohama Mitsuteru Sangokushi"), que na época (finas de 80s-início de 90s) foi muito popular. Talvez tenha sido a melhor adaptação da história que tenha visto, se bem que a minha opinião está mal direccionada porque já conhecia a história muito bem.

Trata-se de um épico da luta pelos reinos da China, nos séculos III e IV. Um homem, Cao Cao (que se diz "Sou Sou") decide que vai ter a China toda para ele. E assim se processa uma guerra imensa, cheia de momentos de pura estratégia de combate e cheia de batalhas que nos levam à ponta do assento, por serem tão emocionantes.

No entanto, estas cenas de batalha são imensamente prejudicadas por uma arte medíocre, cheia de repetição de frames ao longo de todos os episódios, com cores pouco precisas e sombras mal detalhadas, que retiram muito da complexidade das batalhas. Também os cenários não têm qualquer tipo de detalhe e, a não ser pelo design dos personagens, seria difícil de adivinhar que esta história se passa na China antiga.

Também a banda sonora está bastante fraca, sendo algo repetitiva nos momentos de acção e apresentando uma OP muito épica que calha um pouco fora do contexto.

Um anime que vale muito pela excelente adaptação da narrativa, mas que em termos técnicos deixa muito a desejar.